A vida selvagem na Bíblia

Iniciativas de autoridades e voluntários em Israel promovem a preservação de espécies citadas nas Escrituras e convidam o público a conhecê-las de perto

No trecho acima, Deus questiona Jó sobre o fato de seu seguidor se fiar em sua capacidade humana para resolver tudo, e mesmo de tentar resolver o que está além dela. Quer ensiná-lo a confiar nEle. Por sua vez, Jó começa a entender que deve calar suas próprias palavras e ouvir as do Senhor.

Deus continua a falar sobre seus feitos e a perfeição com que a natureza é regida, usando vários animais e o ecossistema da região como exemplos. Fala dos habitantes originais da Terra Santa, que já estavam lá bem antes de o homem pisar nelas.

Mas várias dessas criações de Deus simplesmente desapareceram pela ação predatória do homem, e algumas delas chegaram bem perto desse fim. A frequente caça (principalmente após o advento das armas de fogo) diminuiu bastante o contingente animal. A construção das autoestradas que cortam o deserto possibilitou o acesso mais rápido a alguns lugares, mas também resultou em muitos atropelamentos fatais de bichos.

Um soldado que lutou pela natureza

Na década de 60 do século passado, Avraham Yoffe (1913-1983), importante líder militar e político israelense, deu os primeiros passos para fazer com que aquelas espécies citadas na Bíblia não fossem condenadas ao desaparecimento. Antes mesmo de isso ser algo comum, o general Yoffe (foto à direita) criou duas áreas de preservação para a reintrodução de espécies à natureza: os parques Hai-Bar (palavra para “vida selvagem”, em hebraico), um em Yotvata, no vale de Arava e outro aos pés do monte Carmelo.

A primeira espécie reintroduzida com sucesso no habitat natural foi o jumento selvagem (foto à esquerda) citado em Jó (e também em Gênesis 16:12 e Oseias 8:9). Hoje, mais de 100 jumentos vivem livres, como originalmente, pelos desertos israelenses. Parece pouco, mas significa muito para uma espécie que quase desapareceu.

A recuperação do gamo (citado em Deuteronômio 14:5) ao solo israelense foi um episódio especial. Yoffe viajou até o Irã, pois sabia que lá viviam alguns exemplares, ainda que poucos. No Irã, o general teve um ataque cardíaco. Mas, antes de retornar a Israel para tratamento, designou um colega seu que trabalhava naquele país, o general Itzhak Segev, para conseguir os gamos. Segev promoveu uma ampla procura até a fronteira com a então União Soviética e o Mar Cáspio. Quatro fêmeas foram capturadas, mas só foram para Israel após longas negociações diplomáticas, que incluíram até o embaixador holandês da época. Mas como somente fêmeas poderiam garantir a espécie? Espantosamente, as quatro estavam prenhas, e três deram à luz  exemplares machos, já em seu novo lar no Hai-Bar de Carmelo. Hoje, são mais de 350 os gamos que vivem livres em Israel (como os dafoto à direita).

Outras espécies também foram reintegradas com sucesso ao meio natural: a corça citada no Salmo 42:1 e Habacuque 3:19; o antílope branco (foto abaixo, citado como “boi selvagem” em Números 23:22, Deuteronômio 33:17 e Salmo 92:10). Eles podem ser encontrados nos parques nacionais, assim como lobos, chacais, avestruzes, cobras, hienas, águias e diversos outros que voltaram ao seu status selvagem, além do sempre citado leão.

A reintegração

Quando os animais são recolhidos, passam um tempo sob acompanhamento de especialistas nos Hai-Bar. Enquanto estão no parque, turistas de todo o mundo podem vê-los de perto, até que sejam reintegrados à natureza. Quando já estão soltos, continuam a ser monitorados eletronicamente (por meio de GPS) e vigilância aérea.

No Hai-Bar de Yotvata, bem próximo da cidade de Eilat, um safári ecológico monitorado por 45 quilômetros quadrados leva os turistas para ver os animais em seu estado original (como o feneco, ou raposa do deserto, na foto ao lado), em meio às árvores de acácias. Em um complexo fechado, o Centro de Predadores, os visitantes podem ver ferozes carnívoros bem próximos, protegidos por paredes de vidro ultrarresistente. Em uma divisão protegida da luz solar, você pode ver animais noturnos, como  morcegos, corujas e outros caçadores da noite em ação, como se no próprio deserto estivessem.

Mas um Hai-Bar não é um zoológico. Os animais só têm contato humano quando estritamente necessário, e são “reeducados” a viver por eles mesmos, já que serão reintroduzidos mais tarde.

Porém, quem quer visitar um zoológico normal tem uma boa opção em Israel. O Zoo de Jerusalém (foto acima) tem diversas espécies como “moradoras fixas”, e uma pequena réplica da Arca de Noé, que diverte crianças de várias partes do planeta, educando-as ao mesmo tempo em relação ao respeito pela natureza.

 

Por Marcelo Cypriano / Fotos: Ministério do Turismo de Israel, Zoológico de Jerusalém

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